Os Gigantes da Confiança: Uma Jornada pela Fé
Imagine uma galeria de arte. Não uma com quadros emoldurados e silêncio respeitoso, mas uma galeria viva, pulsante, onde cada obra-prima é uma vida transformada pela confiança em Deus. O autor da Epístola aos Hebreus nos convida a entrar nessa galeria, nos apresentando um desfile de heróis e heroínas que, cada um à sua maneira, viveram e respiraram fé. E o que é essa tal fé? O texto nos dá uma definição poderosa logo de cara:
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”
Essa não é uma fé cega, um salto no escuro sem destino. É a certeza profunda, o alicerce sobre o qual construímos nossas vidas, mesmo quando os planos de Deus parecem distantes ou inatingíveis. É a convicção de que aquilo que não vemos com os olhos é tão real, ou até mais real, do que o que podemos tocar e sentir.
Nossa jornada começa com Abel. Em meio à rotina agrônoma, ele e seu irmão Caim trouxeram ofertas a Deus. Caim, com o fruto da terra; Abel, com o primogênito do seu rebanho. A resposta divina foi clara: Deus se agradou da oferta de Abel. Por quê? O texto diz que foi pela fé. A fé de Abel não era apenas um ritual, mas uma compreensão de que a oferta agradável a Deus envolvia sacrifício, reconhecimento da sua soberania e, talvez, um anseio por reconciliação que ia além do que se via. E o legado de Abel, que fala mesmo após sua morte, é um testemunho eterno do poder dessa confiança.
Seguimos para Enoque, um homem que andou tão intimamente com Deus que, em vez de encontrar o fim da vida, encontrou a eternidade. A narrativa nos diz que ele foi trasladado, que Deus o tomou para si. O segredo? Ele agradou a Deus. E a única forma de agradar a Deus, como o autor reforça, é pela fé. Acreditar que Ele existe e que Ele recompensa aqueles que O buscam de coração sincero.
E então, o gigante da fé: Noé. Diante de um mundo mergulhado na maldade, Deus anuncia um dilúvio. A tarefa dada a Noé era monumental e, para os olhos humanos, absurda: construir uma arca gigantesca, um projeto de décadas. Mas Noé, avisado divinamente sobre coisas que ainda não se viam, agiu com temor reverente. Esse temor não era pavor paralisante, mas um respeito profundo que o levou a obedecer. Sua fé se manifestou em ação, na construção da arca que salvou sua família e, de certa forma, condenou a incredulidade do mundo. Ele se tornou herdeiro da justiça que é segundo a fé.
Chegamos a Abraão, o pai de todos que creem. O chamado de Deus o tirou de sua terra, de sua parentela, para um lugar desconhecido. Ele obedeceu, confiando na promessa de uma herança que ainda não via. Morou em tendas, como um estrangeiro, junto com seus filhos e netos, Isaque e Jacó, vivendo a promessa, mas sem possuí-la plenamente. Abraão não esperava apenas uma terra física; ele esperava “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus”. Essa visão celestial o sustentou. E até mesmo Sara, que humanamente já não tinha condições, recebeu a força para conceber, pois teve por fiel Aquele que lhe prometeu. A promessa se cumpriu de forma tão extraordinária que, do mesmo Abraão, descenderam incontáveis gerações, como as estrelas do céu.
O autor não poupa detalhes sobre as provações de Abraão. Quando Deus o pediu para sacrificar Isaque, o próprio filho da promessa, a fé de Abraão foi levada ao limite. Ele considerou que Deus era poderoso para ressuscitar Isaque dentre os mortos. Essa fé radical o levou a obedecer, e Deus interveio, provendo o cordeiro. Isaque, por sua vez, abençoou seus filhos Jacó e Esaú crendo nas promessas futuras. Jacó, em seus últimos dias, abençoou os filhos de José. E José, mesmo no Egito, lembrou-se da promessa da libertação de Israel e deu instruções sobre seus ossos.
E então, o grande líder, Moisés. Seus pais, pela fé, o esconderam nos primeiros meses, recusando-se a temer o decreto do rei. Anos depois, o próprio Moisés, já adulto, fez uma escolha definidora. Ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó, optando por ser maltratado com o povo de Deus. Ele viu além das riquezas do Egito, vislumbrando a recompensa celestial. Pela fé, deixou o Egito, não temendo a ira do rei, pois “ficou firme, como vendo o invisível”. Ele celebrou a Páscoa, e pela fé, o povo de Israel atravessou o Mar Vermelho, enquanto os egípcios pereceram.
A lista continua: os muros de Jericó caíram pela fé. Raabe, a meretriz, que acolheu os espias israelitas, foi salva pela sua fé e confiança em Deus, não perecendo com os incrédulos. O autor então nos lança em um turbilhão de nomes: Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas. O que eles tinham em comum? Pela fé, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam a boca de leões, apagaram a força do fogo, escaparam da espada, tiraram forças da fraqueza e se tornaram valentes em batalha.
As mulheres também são mencionadas, recebendo seus mortos pela ressurreição, enfrentando torturas e escárnios, mas sem aceitar o livramento para alcançar uma ressurreição superior. Outros foram presos, apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada. Vestiram-se de peles, desamparados, aflitos, maltratados, errantes em desertos e cavernas, pessoas das quais “o mundo não era digno”.
É uma galeria impressionante, não é? Todos eles receberam testemunho pela fé, mas, curiosamente, o texto nos diz que “não alcançaram a promessa”. Isso pode parecer contraditório, mas o autor nos revela o plano divino: “Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados.” A fé deles apontava para algo maior, para a obra redentora que se cumpriria em Cristo, e que nos inclui. Nós somos a continuação dessa história, os elos que completam o anel.
O que essa galeria nos ensina hoje? A fé não é um passe livre para uma vida sem dificuldades. Pelo contrário, muitas vezes é na tribulação que ela se fortalece. A fé é a nossa âncora em meio às tempestades, a luz que nos guia na escuridão, a certeza de que Deus está conosco, mesmo quando não O vemos. Como podemos cultivar essa fé em nossa vida diária? Começa com pequenas obediências, com a confiança em Suas promessas, com a lembrança de Seus atos passados em nossa vida e na história de Seu povo. É um convite para continuarmos a obra, vivendo de tal forma que a nossa vida também se torne um testemunho da fidelidade de Deus, um elo vibrante na grande tapeçaria da fé.