A visão noturna

Daniel 7 começa a segunda metade do livro. Primeira metade (caps. 1-6) — narrativa. Segunda (7-12) — visões apocalípticas. Daniel 7 é o coração da seção.

“No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho, e visões da sua cabeça, na sua cama; então escreveu o sonho, e relatou a suma das coisas.” (Daniel 7:1)

Belsazar, rei da Babilônia. Provavelmente entre 553-550 a.C. Daniel já era idoso.

As quatro feras

“Falou Daniel, dizendo: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o grande mar. E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar.” (Daniel 7:2-3)

Quatro animais subiam do mar. Mar — símbolo de caos das nações.

Primeira fera — leão com asas de águia (v. 4). Asas arrancadas. Posto em pé como homem. Coração de homem dado. Identificada com Babilônia (paralelo com cabeça de ouro em Daniel 2).

Segunda fera — urso (v. 5). Levantado de um lado. Três costelas na boca. Identificada com Pérsia/Média.

Terceira fera — leopardo com quatro asas e quatro cabeças (v. 6). Velocidade + alcance. Identificada com Grécia (Alexandre). Quatro cabeçasimpério dividido entre quatro generais após Alexandre.

Quarta fera — terrível, dentes de ferro, dez chifres (v. 7). Diferente das outras. Devora, esmiúça, pisa. Dez chifres. Identificada com Roma (na leitura clássica cristã).

Esses quatro impérios paralelos aos quatro metais de Daniel 2. Visões diferentes do mesmo conteúdo.

O chifre pequeno

“Estive considerando os chifres, e eis que entre eles subia outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.” (Daniel 7:8)

Chifre pequeno. Figura importante. Sobe entre os dez. Olhos como de homem — inteligência humana. Boca que fala grandes coisasblasfêmias.

Muitos comentaristas identificam o chifre pequeno com o Anticristo — figura escatológica de oposição final a Deus. Outros veem cumprimentos parciais na história (Antíoco Epifânio no AT, imperadores romanos, etc.).

O Ancião de Dias

E vem a cena central:

“Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um Ancião de dias se assentou; o seu vestido era branco como a neve, e o cabelo da sua cabeça como lã pura; o seu trono era chamas de fogo, e as suas rodas, fogo ardente.” (Daniel 7:9)

Ancião de Dias. Deus Pai — descrito em majestade eterna. Cabelo branco como lã — antiguidade dos dias. Vestes brancas — pureza absoluta. Trono de fogo — santidade que consome.

Apocalipse 1:14 ecoa exatamente — “sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve”. Imagem divina permanente.

“Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões estavam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros.” (Daniel 7:10)

Milhares e milhões. Anjos servindo. Assentou-se o juízo. Abriram-se os livros. Tribunal cósmico.

Livrosregistros das ações humanas. Apocalipse 20:12 repete — “abriram-se os livros”. Toda obra registrada.

”Como o Filho do homem”

E vem o ponto culminante:

“Eu estava olhando nas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do homem; e dirigiu-se ao Ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.” (Daniel 7:13)

Como o Filho do homem. Em aramaico, kebar enashcomo filho de homem. Figura humana aparece nas nuvens.

Nuvens — sempre símbolo da presença divina (Sinai, transfiguração). Vem nas nuvensvem como Deus.

Filho do homemhumano. Vem nas nuvensdivino.

Daniel o Messias milênios antesplenamente humano e plenamente divino.

Cristo assume justamente esse título — Filho do Homemmais que qualquer outro. Refere-se a esse texto. Quando o sumo sacerdote pergunta — “és tu o Cristo?” — Cristo responde citando Daniel 7:13 (Mateus 26:64). Sentença de blasfêmia confirmada — porque equivalia a se declarar a figura desta visão.

“E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que nunca será destruído.” (Daniel 7:14)

Domínio, honra, reino. Pra todos os povos. Reino eterno. Nunca destruído.

Cristo Rei universal. Não temporário. Eterno. Apocalipse 11:15 — “os reinos do mundo se tornaram nos reinos do nosso Senhor e do seu Cristo”.

A interpretação dada

Daniel pede interpretação a um anjo. Recebe:

“Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino, e o possuirão para todo o sempre, eternamente.” (Daniel 7:17-18)

Os santos do Altíssimo receberão o reino. Não só Cristo — o povo de Deus participa do reino dele. Reinos humanos passam. Santos herdam.

O chifre pequeno explicado

“O outro chifre que tinha olhos, e uma boca que falava com arrogância… fazia guerra contra os santos, e os vencia, Até que veio o Ancião de dias, e foi dado o juízo aos santos do Altíssimo.” (Daniel 7:20-22)

Faz guerra contra os santos. Vence-os.período de aparente vitória do anticristo. MasAncião de Dias intervém. Juízo a favor dos santos.

Cristão maduro reconhece — há tempos em que aparentemente o mal vence. Tempo limitado. Deus julga depois. Santos herdam no fim.

“Falará palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues nas suas mãos, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo.” (Daniel 7:25)

Tempo, tempos e metade de tempo. Três anos e meio (geralmente interpretado). Tempo limitado de tribulação. Apocalipse 12-13 desenvolve.

”Os santos do Altíssimo”

“Mas o juízo será posto, e tirarão o seu domínio, para o destruir e para o desfazer até ao fim. E o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão.” (Daniel 7:26-27)

Reino dado ao povo dos santos. Promessa final. Cristãos reinarão com Cristo. Reino eterno. Todos os domínios servirão.

Aplicação pastoral

Daniel 7 ensina três coisas pra a fé. Primeiro: impérios humanos são feras. Babilônia, Pérsia, Grécia, Romatodos passaram. Impérios contemporâneos também passarão. Cristão maduro não se ancora em poderes humanos. Cristo é a esperança.

Segundo: Cristo veio nas nuvens. Filho do Homem + vindo nas nuvens = humano e divino. Cristo cumpriu essa figura. Receberá (e está recebendo) reino eterno. Cristão participa desse reino.

Terceiro: santos herdam o reino. Em períodos aparentemente perdidos — quando o anticristo vence aparentementeespere. Ancião de Dias age. Santos recebem o reino. Promessa final.

E as nuvens continuam preparadas. Cristo prometeu“vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens” (Mateus 26:64). Voltará. Como Daniel viu.