Existe um tipo de oração que a gente quase nunca faz. A gente ora por saúde, por emprego, por casamento, por filhos. São orações boas e Deus as ouve. Mas Paulo, preso em Roma, escrevendo para uma igreja distante, dobra os joelhos e pede outra coisa. Ele pede raízes.
Efésios 3 é um capítulo que começa interrompido, atravessa um mistério e termina em adoração. E no meio dele está uma das orações mais profundas já registradas.
Um prisioneiro que não se via como vítima
“Por esta causa eu, Paulo, o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios” — Efésios 3:1.
Repare no que ele não diz. Não diz “prisioneiro de Roma”. Não diz “prisioneiro de Nero”. Não diz “vítima de uma injustiça”. Ele diz prisioneiro de Jesus Cristo.
Paulo estava numa cela real, com correntes reais. Mas ele leu a própria história a partir de Deus, não a partir das circunstâncias. As algemas eram romanas; o propósito era divino.
Isso muda tudo na forma como a gente conta a própria vida. Você pode dizer “estou desempregado” ou “estou num tempo em que Deus está trabalhando comigo”. As duas frases descrevem o mesmo mês do calendário. Só uma delas tem esperança dentro.
O mistério que estava escondido e agora foi dito em voz alta
“Que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da sua promessa em Cristo pelo evangelho” — Efésios 3:6.
O “mistério” de que Paulo fala não é um enigma para iniciados. Na Bíblia, mistério é aquilo que Deus guardava e resolveu revelar.
E qual era o segredo guardado por séculos? Que os de fora entrariam. Que gente sem árvore genealógica santa, sem tradição, sem currículo religioso, seria colocada na mesma mesa, na mesma herança, no mesmo corpo.
Não convidados de última hora. Co-herdeiros.
Se você já se sentiu de fora da igreja — porque chegou tarde, porque tem um passado pesado, porque não sabe os nomes dos livros na ordem — este versículo foi escrito com o seu nome embaixo.
O menor de todos os santos
“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo” — Efésios 3:8.
Paulo tinha formação, tinha história, tinha autoridade apostólica. E se chama de o mínimo.
Não é falsa modéstia. É a matemática de quem entendeu a graça: quanto mais claro fica o quanto você recebeu, menor fica a sua conta de méritos. Quem foi perdoado de muito não consegue fazer pose por muito tempo.
A humildade cristã não é achar que você não presta. É parar de calcular o seu valor e começar a contemplar o valor daquilo que te foi dado.
Ele dobra os joelhos — e pede força para dentro
“Por esta causa me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” — Efésios 3:14.
Agora vem o pedido: “que vos conceda, segundo as riquezas da sua glória, que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior” — Efésios 3:16.
Poder. Mas poder para dentro.
Muita gente quer poder para mudar a situação. Paulo ora por poder para sustentar a pessoa. Porque existem circunstâncias que Deus não muda — e nessas horas o que decide tudo é o que está acontecendo no homem interior.
Há crentes que parecem fortes por fora e estão ocos por dentro. E há crentes de aparência simples que já enterraram filho, perderam emprego, receberam diagnóstico — e continuam de pé. Não é temperamento. É Espírito Santo trabalhando por dentro.
Arraigados e fundados em amor
“Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor” — Efésios 3:17.
Duas imagens, uma da botânica, outra da construção civil.
Arraigados: como árvore que enfiou raiz fundo, e por isso o vento pode balançar os galhos sem derrubar o tronco. Fundados: como prédio assentado na rocha, e por isso a chuva cai sem levar a casa.
E o solo é o mesmo nos dois casos: o amor.
Note que Paulo não diz “arraigados na doutrina” nem “fundados na disciplina” — ainda que doutrina e disciplina sejam boas. O terreno onde a vida cristã se sustenta é o amor de Deus por você. Toda vez que você tenta se firmar no seu próprio desempenho, você está construindo na areia do seu melhor dia — e o seu melhor dia não vem todo dia.
Um amor que você nunca vai terminar de medir
“Possais perfeitamente compreender… qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento” — Efésios 3:18-19.
Paulo pede que a gente compreenda o que ele mesmo diz que excede o entendimento. Parece contradição. Não é.
É como estar diante do mar. Você não abarca o oceano — mas pode entrar nele até a cintura, sentir a água, ser carregado pela onda. Você conhece de verdade sem conhecer por inteiro.
Largura: alcança povos que a religião excluía. Comprimento: dura da eternidade à eternidade. Altura: leva do chão à filiação. Profundidade: desce até onde você caiu e ainda tem chão embaixo.
Você pode passar cinquenta anos medindo esse amor e ainda vai morrer sem chegar na borda. E isso é uma boa notícia.
Aquele que pode fazer infinitamente mais
“Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera” — Efésios 3:20.
Esse versículo é muito citado — e quase sempre pela metade.
A segunda parte é decisiva: segundo o poder que em nós opera. A medida do “muito mais” não é o tamanho do seu sonho. É o tamanho do Deus que já está trabalhando dentro de você.
E olhe onde essa oração desemboca: “a ele glória na igreja, por Jesus Cristo” — Efésios 3:21. O destino da oração não é o seu conforto. É a glória dele. Quando isso se acerta no coração, a oração para de ser negociação e vira comunhão.
Aplicação pastoral
1. Ore por raízes, não só por frutos. Esta semana, inclua na sua oração um pedido que você talvez nunca tenha feito: “Senhor, me fortalece no homem interior”. Continue orando pelas contas, pela saúde, pela família — mas acrescente o pedido de Paulo. Fruto sem raiz seca no primeiro sol forte.
2. Recuse o cálculo de mérito. Toda vez que vier o pensamento “Deus não vai me ouvir porque eu falhei esta semana”, lembre que Paulo se chamou o mínimo e mesmo assim se ajoelhou com ousadia (Efésios 3:12). O acesso não foi comprado por você. Foi aberto por Cristo.
3. Alargue a mesa. O mistério revelado é que os de fora entraram. Se Deus fez isso por você, faça por alguém: convide para o culto aquela pessoa que “não é do meio”, sente do lado de quem chegou sozinho, seja o rosto que diz você cabe aqui. Não se trata de disputar com ninguém — trata-se de repetir com outros o que Deus fez com a gente.