Há orações que pedem coisas. E há orações que pedem pessoas inteiras. Efésios 3 é do segundo tipo.

Paulo está preso. Escreve de uma cela, com correntes nos pulsos, e mesmo assim a carta não tem cheiro de derrota. Tem cheiro de altura, largura, profundidade. Ele não pede para sair. Ele dobra os joelhos e pede que gente que ele mal conhece seja fortalecida por dentro.

Talvez seja exatamente isso que falta na nossa vida de oração. Pedimos alívio. Deus quer nos dar raiz.

”Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo”

O capítulo abre com uma frase estranha. Paulo não diz que é prisioneiro de Roma. Diz que é prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios.

Ele estava numa cadeia real. Grades reais. Mas se recusou a deixar que o carcereiro definisse a história. Roma tinha o corpo dele. Cristo tinha a vida dele.

Isso muda tudo sobre como lemos as nossas circunstâncias. Existe uma leitura de baixo — estou preso, estou parado, estou perdendo tempo. E existe uma leitura de cima — estou aqui por uma causa que não entendo ainda.

Paulo escolheu a leitura de cima. Da cadeia saíram algumas das páginas mais luminosas já escritas.

O mistério que estava escondido e agora foi revelado

Paulo fala de um segredo. Não um segredo esotérico, para iniciados. Um plano que Deus guardou por séculos e finalmente abriu.

E qual era o mistério? Que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e juntamente participantes da sua promessa em Cristo pelo evangelho.

Parece pouco para nós. Para o primeiro século, era um terremoto.

Havia um muro no templo separando judeus de gentios, com aviso de morte para quem cruzasse. Paulo anuncia que Cristo derrubou esse muro. Não fez os gentios virarem judeus. Não fez os judeus deixarem de ser judeus. Fez um corpo novo, onde ninguém entra pelo sangue da família, mas pelo sangue da cruz.

Deus sempre teve mais gente em mente do que nós temos.

”A mim, o mínimo de todos os santos”

Paulo tinha motivos para se achar importante. Formação de elite, revelações extraordinárias, igrejas plantadas em três continentes.

E se chama de o menor de todos os santos.

Não é falsa modéstia. É memória. Ele nunca esqueceu que segurou as roupas de quem apedrejou Estêvão. Nunca esqueceu que perseguiu a Igreja que agora ama.

Quem se lembra de onde foi tirado trata os outros com mais gentileza. A graça que a gente recebeu de joelhos vira graça que a gente distribui de pé.

E note o que vem depois da confissão: a mim me foi dada esta graça de anunciar as riquezas incompreensíveis de Cristo. Deus não usa os que se acham prontos. Usa os que sabem que não são.

Uma sabedoria que os anjos aprendem olhando a Igreja

Aqui há um versículo que quase ninguém prega, e que devia mudar como enxergamos nossa comunidade.

Paulo diz que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus.

Leia devagar. O universo invisível está aprendendo alguma coisa sobre Deus olhando para a igreja local. Olhando para pessoas diferentes sentadas no mesmo banco. Olhando para o perdão entre gente que tinha todo direito de guardar mágoa.

Sua comunidade é imperfeita, sim. Você conhece os defeitos dela de cor. Mas ela é o quadro-negro onde Deus escreve a lição da sua sabedoria.

Isso deveria nos curar do hábito de falar mal do corpo de Cristo. Em qualquer tradição em que ele apareça.

”Que Cristo habite pela fé nos vossos corações”

Agora chegamos ao coração do capítulo. Paulo dobra os joelhos e faz quatro pedidos.

O primeiro: que sejam corroborados com poder pelo seu Espírito, segundo as riquezas da sua glória, no homem interior. Força por dentro. Não circunstâncias melhores — músculo interior.

O segundo: que Cristo habite pela fé nos vossos corações. A palavra é habitar, morar. Não visitar no domingo. Morar como quem desfaz as malas e muda os móveis de lugar.

O terceiro: estar arraigados e fundados em amor. Duas imagens. Uma de árvore — raiz que desce fundo e segura na seca. Outra de construção — alicerce que aguenta o vento.

O quarto: compreender qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade do amor de Cristo. E aí Paulo faz a confissão mais honesta da carta: esse amor excede todo o entendimento.

Ou seja: ele ora para que a gente conheça o que não cabe na cabeça. Porque amor não se entende. Amor se experimenta.

”Àquele que é poderoso para fazer muito mais abundantemente”

O capítulo termina numa explosão de louvor.

Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera.

Repare na medida. Deus não é comparado com nossos problemas. É comparado com nossas orações. E as ultrapassa.

Você já pediu grande demais? Paulo diz que não. Já imaginou bonito demais? Paulo diz que ainda é pouco.

E o poder que faz isso não está longe, num céu distante. É o poder que em nós opera — o mesmo Espírito que Paulo pediu no versículo 16, trabalhando dentro de gente comum, em casas comuns, em segundas-feiras comuns.

Aplicação pastoral

1. Ore por raízes, não só por alívio. Faça uma lista de oração diferente esta semana. Ao lado de cada pedido por circunstância, escreva um pedido por caráter: paciência, força interior, capacidade de amar. Deus responde os dois — mas só um deles fica com você para sempre.

2. Trate sua comunidade como o quadro-negro de Deus. Antes de criticar sua igreja, ou a igreja do vizinho, lembre-se de Efésios 3:10. Escolha uma pessoa difícil da sua comunidade e faça um gesto concreto de gentileza nesta semana. É assim que a sabedoria de Deus fica visível.

3. Peça algo grande. Se Deus faz muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, nossas orações pequenas não o protegem de nada — só nos empobrecem. Escolha hoje um pedido que você vinha achando ousado demais. Leve-o a Deus com todas as letras. Depois espere, com raiz funda, o que só Ele pode fazer.