Existe um tipo de pessoa que carrega o passado como se fosse mala de mudança. Nunca chega em lugar nenhum leve. E existem dois passados que pesam: o das coisas erradas que fizemos e o das coisas certas que fizemos. O primeiro acusa. O segundo infla. Os dois travam.
Paulo conhecia os dois. E em Filipenses 3 ele escreve talvez o parágrafo mais libertador que já colocou no papel.
”Quanto ao mais, irmãos meus, regozijai-vos no Senhor”
O capítulo começa com alegria, não com repreensão. Filipenses 3:1 é um respiro antes do mergulho.
Repare: Paulo está preso. Escrevendo de uma cela. E a primeira palavra é alegrai-vos. Não porque a cadeia fosse boa, mas porque a alegria dele não morava na circunstância. Morava no Senhor.
Isso muda tudo na hora de ler o resto do capítulo. O que vem a seguir não é o desabafo de um homem amargurado. É o testemunho de alguém que achou uma alegria que a prisão não alcança.
O currículo que ele podia ostentar
Nos versículos 5 e 6, Paulo faz algo curioso: lista as próprias credenciais.
Circuncidado ao oitavo dia. Da linhagem de Israel. Da tribo de Benjamim. Hebreu de hebreus. Quanto à lei, fariseu. Quanto ao zelo, perseguidor da igreja. Quanto à justiça da lei, irrepreensível.
Traduzindo para hoje: família cristã de berço, formação teológica de primeira, frequência impecável, dízimo em dia, ninguém tinha o que falar dele.
E é justamente isso que ele vai colocar na balança. Não os pecados. As virtudes. Porque o pecado a gente sabe que não salva. O que engana é achar que o esforço religioso salva.
”Tenho-as por escória, para que possa ganhar a Cristo”
Filipenses 3:8 é o versículo que dói e cura ao mesmo tempo.
Paulo diz que considera tudo perda “pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”. A palavra que ele usa é forte — lixo, refugo, aquilo que se joga fora.
Mas veja o motivo. Ele não despreza o passado porque descobriu que era ruim. Ele despreza porque encontrou algo incomparavelmente melhor. É como alguém que larga a moeda quando lhe oferecem a casa.
Quem só larga as coisas por culpa vive triste. Quem larga por ter achado o tesouro vive livre. A diferença entre religião e evangelho está aí.
Uma justiça que não é minha
“Não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo” — Filipenses 3:9.
Aqui está o coração do capítulo, e o coração do evangelho.
Existem duas maneiras de tentar ficar de pé diante de Deus. Uma é construir uma justiça própria, tijolo por tijolo, com boas obras e disciplinas. A outra é receber, de graça, a justiça de Cristo.
A primeira nunca fica pronta. Sempre falta um tijolo. Sempre aparece uma rachadura numa noite de insônia.
A segunda já está pronta desde a cruz. É a mesma verdade que Paulo desenvolve em Romanos 3:24: justificados gratuitamente pela graça.
E note: um homem com o currículo de Paulo é justamente quem tinha mais motivo para confiar em si mesmo. Se ele precisou da graça, ninguém está fora dessa conta.
”Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição”
Filipenses 3:10 revela o que Paulo realmente queria.
Não era saber sobre Cristo. Era conhecê-lo. E ele inclui na lista algo que normalmente ninguém pede: “a comunicação de suas aflições”.
Paulo queria conhecer a Cristo inteiro. A ressurreição e a cruz. A vitória e o custo.
Muita gente quer só a metade boa. Quer o poder sem o processo, a colheita sem o inverno. Mas o conhecimento profundo de Jesus costuma nascer nos lugares onde a vida apertou. Não porque Deus goste da nossa dor, mas porque é ali que descobrimos o que nunca teríamos descoberto no conforto.
”Uma coisa faço: esquecendo-me das que atrás ficam”
Filipenses 3:13 é a frase que sustenta o capítulo inteiro.
E é importante entender: esquecer, aqui, não é amnésia. Paulo lembrava perfeitamente que havia perseguido a igreja — ele mesmo conta isso em outras cartas. Esquecer, no sentido bíblico, é deixar de dar poder. É parar de deixar que o passado dite o próximo passo.
Ele também diz, no versículo anterior, algo humilde: “não que já a tenha alcançado”. O apóstolo que escreveu meia Bíblia se declara em processo. Se Paulo ainda estava a caminho, você tem permissão para ainda estar a caminho também.
Há duas direções possíveis para o olhar. Para trás, que paralisa. Para frente, que move. Ele escolheu uma só: uma coisa faço.
”Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação”
Filipenses 3:14 usa a imagem do corredor.
O corredor não olha para os lados. Não confere quem ficou para trás. O corpo inteiro se inclina na direção da linha de chegada.
E o capítulo termina lembrando de onde é a nossa cidadania: “a nossa cidade está nos céus” — Filipenses 3:20. Quem sabe para onde vai suporta melhor o caminho.
Aplicação pastoral
1. Faça as pazes com o currículo — o bom e o ruim. Escreva mentalmente sua lista, como Paulo fez. As conquistas religiosas e os fracassos. E entregue as duas colunas. Nenhuma delas é o que te sustenta diante de Deus. Só Cristo é. Isso não diminui suas boas escolhas; apenas coloca cada coisa no seu lugar.
2. Troque a pergunta “sou bom o bastante?” por “de quem é a justiça que me cobre?”. A primeira pergunta não tem fim. A segunda tem resposta desde a cruz. Quando a acusação vier — e ela vem, geralmente à noite —, responda com o versículo 9, não com uma lista de méritos.
3. Escolha uma coisa e prossiga. Paulo não disse “cem coisas faço”. Disse uma. Nesta semana, identifique um passo concreto para frente: uma reconciliação, um hábito de oração, um pedido de perdão, um serviço na igreja. Pequeno e possível. Correr é dar um passo de cada vez, na mesma direção, por muito tempo.