“Houve outro dia”

Jó 2 abre com uma repetição solene. Outro dia. Os filhos de Deus de novo diante do Senhor. Satanás de novo no meio.

“E houve outro dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR; e veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o SENHOR.” (Jó 2:1)

Cena celestial repetida. Mesmo cenário. Mas a prova vai aprofundar.

E Deus abre o diálogo. Pergunta ao Satanás de onde vem. Mesma pergunta de antes. Mesma resposta — de rodear a terra.

”Ainda retém a sua sinceridade”

Aí vem a fala do Senhor sobre Jó:

“Notaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero e reto, temente a Deus, e desviando-se do mal, e que ainda retém a sua sinceridade.” (Jó 2:3)

Ainda retém. Apesar da primeira prova. Apesar da perda de tudo. Sincero. Reto. Temente. Desviado do mal.

Deus se gloria da fé do servo. Diante do acusador.

Princípio. A fé madura retém sinceridade mesmo depois de perdas. Não desmorona.

”Pele por pele”

Mas Satanás não desiste.

“Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Mas estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face.” (Jó 2:4-5)

Pele por pele. Provérbio antigo. Tudo o homem dá pela própria vida.

Toca-lhe nos ossos. Toca-lhe na carne. O acusador aprofunda a aposta. Dizo corpo é o limite. Mexe , Jó cai.

E o Senhor permite. Mas põe limite. Poupa a vida.

Princípio. Provas têm limite divino. Satanás não atua livre. Deus governa o que é permitido.

Chagas, cinza e caco

“Então saiu Satanás da presença do SENHOR, e feriu a Jó de uma chaga maligna, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. E tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza.” (Jó 2:7-8)

Da planta do pé ao alto da cabeça. Todo o corpo coberto. Chaga maligna.

Caco pra se raspar. Cinza pra se assentar. Imagem da miséria humana extrema. Sem casa. Sem saúde. Sem filhos. Sem nada.

E é neste estado que vem a fala da esposa.

A esposa fala duro

“Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre.” (Jó 2:9)

Amaldiçoa a Deus, e morre. Palavra dura. Amarga.

Cuidado aqui. A esposa também perdeu os mesmos dez filhos. Sofre também. Não é monstro. É mulher em luto profundo. Cansada. Sem esperança.

Mas a saída que ela propõe é blasfêmia. Maldição contra Deus. Morte como alívio.

Princípio. O sofrimento tenta a alma. Aproxima falas que em outra hora não diríamos. Cuidado com o que a dor faz a palavra.

”Como fala qualquer doida”

E Jó responde. Sem gritar. Sem humilhar. Mas corrige.

“Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.” (Jó 2:10)

Como fala qualquer doida. Não a chama de doida. Dizfala como doida falaria. Distingue a esposa da fala dela.

Receberemos o bem. Não receberíamos o mal? Lógica da fé madura. Tudo vem da mão do Senhor. Bem e mal. Recebe-se.

Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios. Comentário do narrador. Coraçãonão sabemos. Lábiosguardados.

Os três amigos chegam

“Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que tinha vindo sobre ele, vieram cada um do seu lugar… e se ajuntaram para virem condoer-se dele, e para o consolarem.” (Jó 2:11)

Elifaz. Bildade. Zofar. Três amigos. De três lugares. Vêm condoer-se. Vêm consolar.

“Levantando de longe os seus olhos, não o conheceram; e levantaram a sua voz, e choraram; e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao alto.” (Jó 2:12)

Não o conheceram. Desfigurado pela doença. Choraram. Rasgaram. Lançaram pó. Luto visível.

“E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande.” (Jó 2:13)

Sete dias. Sete noites. Em silêncio.

Princípio. Às vezes o melhor consolo é o silêncio presente. Sentar junto. Não falar. Acompanhar a dor. Quando os amigos abriram a boca, vieram os erros. Caladosforam bons.

Aplicação pastoral

Jó 2 ensina três coisas pra a vida cristã. Primeiro: provas têm limite. Satanás não age livre. Deus governa o que é permitido. Cristão sofredor crêo limite foi posto. Não passa.

Segundo: a dor tenta a fala. A esposa amargou. Pessoas próximas podem dizer o que em outra hora não diriam. Não responda com dureza. Corrija com mansidão. Distinga a pessoa do momento.

Terceiro: o silêncio é consolo. Antes de aconselhar, sente junto. Sete dias. Sete noites. Presença sem palavra. Muitas vezes basta. Palavras precoces machucam.

E o servo do Senhor mantém os lábios guardados na dor. Não peca com a boca. Caminho de fé madura — sofrer e bendizer. Receber bem e receber mal. Tudo da mesma mão.