A viúva persistente
Lucas 18 começa com parábola sobre oração:
“Disse-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer.” (Lucas 18:1)
Orar sempre. Nunca desfalecer. Princípio fundamental. Persistência na oração.
A parábola — viúva incomoda juiz iníquo. Juiz não temia a Deus nem respeitava homens. Mas cansou da insistência da viúva — cedeu.
“Ouvi o que diz o juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tarde em responder?” (Lucas 18:6-7)
Argumento do menor pro maior. Juiz iníquo cedeu por insistência. Quanto mais Pai Justo responde aos eleitos?
Princípio. Orar persistentemente não é forçar Deus. É expressar fé contínua. Deus responde — no tempo dele. Não desistir importa.
”Achará fé na terra?”
“Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lucas 18:8)
Achará fé na terra? Pergunta inquietante. Quando Cristo voltar, quantos terão fé? Não se fé total. Fé real. Mesmo pequena. Mesmo perseverante.
Aviso. Sustentar fé até o fim é desafio. Cristão maduro cultiva fé que permanece.
O fariseu e o publicano
E vem a parábola central:
“E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam aos outros.” (Lucas 18:9)
A uns que confiavam em si mesmos. Alvo claro. Justos por mérito próprio. Desprezavam outros.
“Dois homens subiram ao templo, a orar; um fariseu, e o outro publicano.” (Lucas 18:10)
Fariseu — religioso respeitado. Publicano — cobrador de impostos, desprezado.
A oração do fariseu:
“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.” (Lucas 18:11-12)
Orava consigo. Detalhe. Não orava a Deus de fato. Falava consigo mesmo. Auto-elogio disfarçado em oração.
Graças te dou — não sou como os outros. Comparação. Auto-justificação.
Jejuo duas vezes. Dou dízimo de tudo. Práticas reais. Acima do exigido pela Lei. Mas — postura — soberba.
A oração do publicano:
“O publicano, porém, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia em seu peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lucas 18:13)
De longe. Sem aproximar-se. Não levantava os olhos. Vergonha.
Batia no peito. Gesto de luto, contrição.
Tem misericórdia de mim, pecador. Oração de cinco palavras (em grego). Direta. Honesta. Sem mérito. Só misericórdia.
”Justificado, não aquele”
“Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” (Lucas 18:14)
Justificado. Declarado justo. Publicano — com pecados visíveis — recebeu justiça. Fariseu — com obras visíveis — não recebeu.
Princípio do reino. Auto-exaltação — humilhação. Auto-humilhação — exaltação. Inversão divina.
Cristão maduro reconhece — toda confiança em mérito próprio é errada. Justificação vem por misericórdia. Recebida por quem reconhece pecado.
Deixai vir as crianças
E vem a cena dos meninos:
“E traziam-lhe também algumas criancinhas, para que ele as tocasse; e os discípulos, vendo isto, repreendiam-nos. Mas Jesus, chamando-as para si, disse: Deixai vir a mim as crianças, e não as impeçais, porque de tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele.” (Lucas 18:15-17)
Como menino. Receber o reino na postura de criança. Dependência, confiança simples, ausência de cinismo religioso.
O jovem rico
E depois — o jovem rico (também em Mateus 19, que já comentamos). Cristo aponta o ídolo. Jovem retira-se triste. Cristo comenta:
“Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Lucas 18:24-25)
Camelo pelo fundo de uma agulha. Praticamente impossível. Mas — a Deus tudo é possível. Há ricos salvos — quando a graça opera o impossível.
”Eis que tudo deixamos”
Pedro: eis que tudo deixamos pra te seguir.
“Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus, Que não haja de receber muito mais neste tempo, e no século vindouro a vida eterna.” (Lucas 18:29-30)
Muito mais. Recompensa aqui (família espiritual) e na eternidade (vida eterna). Compensação divina pra os que sacrificam por Cristo.
”Filho de Davi, tem misericórdia”
E chegando a Jericó — Bartimeu, cego (Marcos identifica o nome) — clama:
“Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (Lucas 18:38)
Filho de Davi. Reconhecimento messiânico. Cego com olhos espirituais abertos.
Multidão manda calar. Cego grita mais alto. Persistência recompensada.
Cristo o cura. A tua fé te salvou.
Aplicação pastoral
Lucas 18 ensina três coisas pra a fé. Primeiro: ore sem desfalecer. Persistência na oração. Viúva e juiz iníquo. Quanto mais o Pai responde aos eleitos. Não desista das suas orações.
Segundo: humilhe-se diante de Deus. Fariseu confiante — não justificado. Publicano humilde — justificado. Cristão maduro não confia em currículo religioso. Confia na misericórdia. Tem misericórdia de mim, pecador.
Terceiro: receba o reino como criança. Sem cinismo. Sem auto-confiança. Postura simples. Em qualquer idade física, coração de criança espiritual.
E a oração do publicano continua sendo o modelo. Cinco palavras. Suficientes. Tem misericórdia de mim, pecador. Cristão maduro começa o dia com essa postura. E todo dia.