A tradição dos anciãos
Mateus 15 começa com fariseus de Jerusalém viajando até a Galileia especificamente pra confrontar Cristo:
“Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão.” (Mateus 15:2)
Tradição dos anciãos. Não a Lei escrita. Adições humanas à Lei. Cerca em volta da cerca — regras extras pra evitar até chegar perto de quebrar a Lei. Lavagem ritual de mãos era uma dessas tradições.
Cristo responde com contrapergunta:
“Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição?” (Mateus 15:3)
E dá exemplo. Eles usavam Corbã (declarar como oferta a Deus algo destinado aos pais) pra evitar honrá-los economicamente. Tradição cancelando mandamento.
Hipócritas, bem profetizou Isaías de vós, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.
Preceitos de homens vendidos como vontade de Deus. Risco eterno da religião institucional.
”O que sai da boca”
E Cristo chama a multidão pra ensinar princípio fundamental:
“Ouvi e entendei: O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.” (Mateus 15:10-11)
O que entra — comida. Não contamina. (Mateus 15 implicitamente abre caminho pra anulação das leis dietéticas judaicas. Marcos explicita em Marcos 7:19.)
O que sai — palavras. Contamina — porque revela o coração.
“As coisas que saem da boca, procedem do coração, e essas contaminam o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituições, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.” (Mateus 15:18-19)
Do coração procedem. Lista que ressoa em Provérbios 4:23 — “sobre tudo o que se guarda, guarda o teu coração”. Cristo confirma — coração é a fonte.
Cristão maduro entende. Não basta cuidar do comportamento externo. Tem que cuidar do coração. Lavar mãos é fácil. Lavar o coração só Cristo pode.
A cananeia
E Cristo retira-se às partes de Tiro e Sidom — território gentio histórico, inimigo de Israel (cananeus). Movimento incomum — Cristo geralmente ministrava em terra judaica.
“Eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada.” (Mateus 15:22)
Cananeia. Não judia. Filha endemoninhada. Pede socorro.
E Cristo cala. Mas ele não lhe respondeu palavra.
Detalhe estranho. Por que Cristo cala com mulher em desespero? Provavelmente pra provocar a fé dela a se manifestar mais. E pra ensinar aos discípulos sobre o coração de Deus pros gentios.
Os discípulos intervêm — mas com tom errado: “despede-a, que vem gritando atrás de nós”. Queriam livrar-se dela. Cristo responde:
“Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mateus 15:24)
Verdade da fase atual do ministério. Cristo primeiro a Israel. Gentios viriam depois (após a ressurreição — Grande Comissão).
A persistência
Mas a mulher não desiste. Aproxima-se. Adora.
“Mas ela veio, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me!” (Mateus 15:25)
Oração curta. Senhor, socorre-me. Adoração junto com pedido. Postura humilde.
E Cristo responde com analogia aparentemente dura:
“Não é bom pegar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.” (Mateus 15:26)
Cãezinhos — kunaria em grego — cachorrinhos domésticos. Diferente de cães selvagens. Cristo usa diminutivo terno. Mas a analogia ainda é forte — gentios como cachorrinhos da casa, judeus como filhos.
E a mulher aceita a posição e vira a analogia a favor dela:
“Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.” (Mateus 15:27)
Resposta brilhante. Aceita ser cachorrinho — mas cachorrinho ainda come. Migalhas da mesa Dele bastam. Não exige o pão inteiro dos filhos. Migalhas já são suficientes.
Esse versículo é teologicamente denso. Migalhas de Cristo bastam pra curas espetaculares. Quem entende o valor de uma migalha Dele está bem.
”Grande é a tua fé”
“Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã.” (Mateus 15:28)
Grande é a tua fé. Cristo elogia publicamente. Outros recebem fé pequena (Pedro afundando — Mateus 14:31). Esta cananeia recebe fé grande. Notável que o destaque venha pra gentia — não pra discípulo judeu.
Seja feito como desejas. Cristo libera o desejo dela. A cura imediata da filha. Desde aquela hora.
Outra multiplicação
O capítulo continua. Cristo cura muitas pessoas em monte galileu. E faz segunda multiplicação dos pães — sete pães e poucos peixinhos, quatro mil homens (sem contar mulheres e crianças), sete cestos de sobras.
“E Jesus, chamando os seus discípulos, disse: Tenho íntima compaixão da multidão, porque já está comigo há três dias, e não tem o que comer; e não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho.” (Mateus 15:32)
Tenho íntima compaixão. Mesmo padrão de Mateus 9:36. Cristo vê pessoas com fome. Não despreza. Provê.
Aplicação pastoral
Mateus 15 ensina três coisas pra a fé. Primeiro: tradições não substituem mandamentos. Religiões institucionais acumulam tradições. Algumas são úteis. Mas quando contradizem a Palavra, Palavra prevalece. Cuidado com preceitos de homens vendidos como vontade de Deus.
Segundo: persista na oração. A cananeia não desistiu quando Cristo calou. Continuou. Adorou. Argumentou com sabedoria. E recebeu. Se você ora há muito sem resposta, persista. Migalhas de Cristo bastam.
Terceiro: cuide do coração. Do coração procede tudo. Comportamento externo é fácil de polir. Coração exige trabalho do Espírito. Pergunte — do que o meu coração está cheio? Aquilo vai sair pela boca.
E a cananeia continua sendo lembrada. Como exemplo de fé grande em terreno gentio. Pra cristão hoje — não importa sua origem, Cristo recebe. Migalhas bastam.