Existe uma pergunta que persegue quase todo cristão sincero: sou aceito por Deus por causa do que faço, ou apesar do que faço? Romanos 4 responde essa pergunta usando o homem mais respeitado do Antigo Testamento. Se alguém pudesse se gabar diante de Deus, seria Abraão. E é exatamente ele que Paulo escolhe para provar que ninguém pode.
”Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça”
O capítulo abre com uma pergunta direta: o que Abraão alcançou segundo a carne? Romanos 4:1
Paulo então cita Gênesis 15:6: creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
Repare no verbo. Não diz que Abraão conquistou justiça. Diz que a justiça lhe foi imputada — creditada, lançada na conta dele. É linguagem de contabilidade. Abraão estava no vermelho e alguém depositou por ele.
Isso muda tudo. A justiça que Deus aceita não é a que produzimos com esforço. É a que Ele credita a quem confia. E se foi assim com o pai da fé, não pode ser diferente com você.
”Ao que trabalha não é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida”
Paulo usa uma imagem que todo mundo entende: o salário. Romanos 4:4
Quem trabalha recebe salário. Ninguém agradece o patrão no dia do pagamento como se fosse presente — é direito, é dívida quitada. Mas a salvação não funciona assim. Ela vem segundo a graça, e graça que se merece deixou de ser graça.
Muita gente cristã vive cansada porque tenta transformar a graça em folha de pagamento. Ora mais para merecer resposta. Serve mais para merecer paz. Dá mais para merecer bênção.
Mas o evangelho não é contracheque. É herança. E herdeiro não bate ponto.
”Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado”
Depois de Abraão, Paulo convoca uma segunda testemunha — e escolhe alguém que fracassou feio. Davi.
Citando o Salmo 32, Paulo escreve: bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas (Romanos 4:7).
É uma escolha corajosa. Abraão representa o crente exemplar; Davi representa o crente caído. E os dois chegam ao mesmo lugar pela mesma porta: a graça.
Se você está lendo isso carregando uma queda que não consegue contar pra ninguém, entenda: o texto não diz bem-aventurado quem nunca errou. Diz bem-aventurado aquele a quem o Senhor não imputa o pecado. A mesma contabilidade que credita justiça também apaga dívida.
”Foi na incircuncisão que lhe foi imputado”
Aqui Paulo faz uma pergunta que parecia técnica e é profundamente pastoral: Abraão foi declarado justo antes ou depois de ser circuncidado? Romanos 4:10
A resposta: antes. Anos antes. O sinal veio depois, como selo daquilo que a fé já havia recebido.
Isso derruba qualquer sistema em que o rito produz a aceitação. Os sinais e as práticas da vida cristã são preciosos — mas eles selam o que a fé recebeu, não criam o que Deus concede. A ordem importa: primeiro a graça recebida pela fé, depois a vida que responde a essa graça.
E há uma ternura nisso. Deus aceitou Abraão quando ele ainda não tinha marca nenhuma para exibir. Deus tem o hábito de nos receber antes de estarmos apresentáveis.
”Não enfraqueceu na fé… antes foi fortificado na fé”
O trecho mais bonito do capítulo descreve um homem de quase cem anos olhando para o próprio corpo. Romanos 4:19 diz que ele considerou o próprio corpo já amortecido e o ventre de Sara também.
Ou seja: Abraão não fechou os olhos para a realidade. Ele olhou de frente. Fé bíblica não é negação da dor nem otimismo forçado. É olhar o impossível e olhar Deus — e concluir que Deus é maior.
Por isso o versículo-chave: não duvidou da promessa de Deus por incredulidade; mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus (Romanos 4:20).
Repare: ele foi fortificado. A fé de Abraão cresceu no deserto da espera, não fora dele. Vinte e cinco anos entre a promessa e Isaque. E foi ali, na demora, que a fé engrossou.
”O Deus que vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem”
Toda essa argumentação repousa sobre uma definição de Deus que aparece em Romanos 4:17: Ele vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem.
Essa é a razão pela qual a fé faz sentido. Não cremos porque somos otimistas. Cremos porque o objeto da nossa fé é um Deus que trabalha com ventres estéreis, sepulcros fechados e casos encerrados.
Abraão creu num Deus assim e ganhou um filho. Nós cremos num Deus assim e ganhamos a ressurreição — porque o capítulo termina apontando para Jesus, que foi entregue por causa das nossas ofensas, e ressuscitou para a nossa justificação (Romanos 4:25).
O túmulo vazio é a prova final de que Deus chama à existência aquilo que não existe.
Aplicação pastoral
1. Pare de tentar pagar pelo que já foi comprado. Faça hoje um exame honesto: em que área você tem servido a Deus tentando merecer algo que Ele já deu de graça? Nomeie essa área em oração e devolva a Ele o peso. Sirva por gratidão, não por dívida.
2. Olhe a realidade de frente e olhe Deus depois. Abraão considerou o corpo amortecido — e ainda assim creu. Escreva num papel a situação impossível que você carrega. Do lado, escreva quem é o Deus de Romanos 4:17. Não negue o problema; apenas não o deixe ser a última palavra.
3. Trate a espera como escola, não como castigo. A fé de Abraão foi fortificada durante os anos de demora. Se você está no intervalo entre a promessa e o cumprimento, pergunte: o que Deus está formando em mim aqui que só se forma na espera? Anote, ore e persevere. Deus não está atrasado — está trabalhando.