“Bendize, ó minha alma”
O Salmo 103 é um dos mais lidos do livro. Davi fala consigo mesmo — convoca a própria alma a louvar:
“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios.” (Salmos 103:1-2)
Bendize, ó minha alma. Davi ordena à própria alma. Não espera sentir vontade — manda. Princípio importante. Adoração nem sempre nasce sentimento. Às vezes começa em decisão. Cristão maduro fala consigo — bendize, alma.
Tudo o que há em mim. Inteiro envolvido. Não só boca. Alma, corpo, mente, sentimentos. Tudo.
Não te esqueças de nenhum dos seus benefícios. Ordem específica — não esqueça. Cristão tem memória curta pras bênçãos. Esquece. Lembre. Conte. Liste.
Os cinco benefícios
E Davi lista benefícios (vv. 3-5):
“É ele que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades, Que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia, Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.” (Salmos 103:3-5)
Cinco benefícios:
1. Perdoa todas as iniquidades. Não algumas. Todas. Perdão completo em Cristo.
2. Sara todas as enfermidades. Cura. Pode ser física, emocional, espiritual. Cumpre-se parcialmente aqui — totalmente na ressurreição.
3. Redime a vida da perdição. Resgate. Cristo paga o preço.
4. Coroa de benignidade e misericórdia. Honra divina. Cristão coroado (em sentido espiritual) pela graça.
5. Farta de bens. Mocidade renovada como águia. Provisão. Renovação. Não envelhecimento só negativo — renovação interior contínua.
A imagem da águia que se renova — provavelmente referência ao mudar de plumagem do animal. Águia parece rejuvenescer quando trocava penas. Cristão interiormente renova-se de força em força.
”Misericordioso e piedoso”
“O SENHOR faz justiça e juízo a todos os oprimidos.” (Salmos 103:6)
Justiça aos oprimidos. Deus defende os explorados. Princípio que atravessa todo o AT.
“Fez notórios os seus caminhos a Moisés, e os seus feitos aos filhos de Israel. Misericordioso e piedoso é o SENHOR; longânimo e grande em benignidade.” (Salmos 103:7-8)
Misericordioso. Piedoso. Longânimo. Grande em benignidade. Quatro atributos. Eco de Êxodo 34:6, onde Deus passou diante de Moisés declarando seu nome.
Longânimo — paciente, lento à ira. Característica que vimos em outros textos. Deus aguenta. Não explode.
”Não nos trata segundo os nossos pecados”
“Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades. Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões.” (Salmos 103:10-12)
Três imagens poderosas:
Não nos tratou segundo os pecados. Se Deus nos retribuísse o que merecemos, ninguém ficaria em pé.
Quanto o céu está elevado acima da terra — assim é grande a misericórdia. Distância vertical infinita. Misericórdia é tão maior que pecado quanto o céu é maior que a terra.
Quão longe está o oriente do ocidente — assim afasta as transgressões. Distância horizontal infinita. Norte e sul têm pólos. Leste e oeste — seguem-se sem fim. Pecados removidos infinitamente.
Esses três versículos são fundamento da paz cristã. Em Cristo, pecados removidos pra distância infinita. Não precisam ser carregados na consciência. Removidos.
”Como o pai se compadece”
“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura, e se lembra de que somos pó.” (Salmos 103:13-14)
Como pai se compadece. Imagem paterna. Sabe das fragilidades do filho. Acomoda.
Conhece a nossa estrutura. Lembra que somos pó. Deus não exige da gente o que somos incapazes. Sabe que somos frágeis. Trata com paciência.
Princípio alentador. Cristão que se cobra além do humanamente possível esquece que Deus se lembra que somos pó. Há expectativas altas — mas há compaixão também.
”Os dias do homem”
“Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo, assim ele floresce. Pois, soprando nela o vento, desaparece, e o seu lugar não a conhece mais. Mas a misericórdia do SENHOR é de eternidade a eternidade sobre aqueles que o temem.” (Salmos 103:15-17)
Como erva. Como flor. Vida humana é passageira. Sopra o vento — desaparece.
Misericórdia é de eternidade a eternidade. Em contraste, a misericórdia de Deus atravessa eternidades. Cristão maduro investe no eterno, não no passageiro.
”Bendizei o SENHOR, todas as suas obras”
E o salmo culmina convocando todo o cosmos:
“Bendizei o SENHOR, todos os seus anjos, vós, fortes em poder, que executais as suas ordens… Bendizei o SENHOR, todas as suas obras, em todos os lugares do seu domínio; bendize, ó minha alma, ao SENHOR.” (Salmos 103:20-22)
Anjos. Exércitos. Obras todas. Convocação universal. Tudo o que existe — bendiga ao Senhor.
E volta ao início — bendize, ó minha alma. Termina como começou. Refrão.
Aplicação pastoral
Salmo 103 ensina três coisas pra a vida cristã. Primeiro: fale com a própria alma. Quando não sentir vontade de adorar, ordene à alma. Bendize, ó minha alma. Decisão precede sentimento. Adoração nem sempre nasce de impulso.
Segundo: lembre dos benefícios. Não te esqueças. Cristão agradecido é cristão forte. Lembre — perdão, cura, redenção, coroa, provisão. Liste na sua vida específica o que Deus já fez.
Terceiro: distância infinita entre você e seus pecados. Em Cristo, os pecados foram removidos — como o oriente do ocidente. Não os carregue na consciência. Já foram removidos. Receba o perdão. Viva livre.
E o SENHOR se lembra que somos pó. Em qualquer momento de fraqueza, Ele compreende. Como pai se compadece. Cristão maduro recebe essa misericórdia paterna — e bendiz.