Existe um salmo que parece um mural de fotografias. Quatro quadros pendurados lado a lado. Em cada um, um tipo diferente de gente quebrada. E embaixo de cada quadro, a mesma legenda.
O Salmo 107 abre assim: “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre” — Salmos 107:1. E logo em seguida vem o convite mais bonito do capítulo: “Digam-no os remidos do SENHOR” (Salmos 107:2).
Ou seja: quem foi resgatado, conta. Não guarda. Não esconde. Fala.
Os que se perderam no deserto e não achavam cidade
O primeiro quadro é de gente andando em círculo.
“Andaram desgarrados pelo deserto, por caminhos solitários; não acharam cidade para habitarem” — Salmos 107:4. Famintos. Sedentos. A alma desfalecendo dentro deles.
Você já esteve nesse deserto. Não é necessariamente pecado grave. Às vezes é só falta de rumo. Meses passando sem saber pra onde a vida está indo. Trabalho que não leva a lugar nenhum. Oração que parece bater no teto.
E aí vem o versículo que vai se repetir quatro vezes: “Clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades” (Salmos 107:6). Ele os guiou por caminho direito — e os levou a uma cidade onde pudessem morar.
Deus não só tira do deserto. Ele dá endereço.
Os que se sentaram nas trevas por causa da própria rebeldia
O segundo quadro é mais duro. E o salmo é honesto sobre a causa.
“Tal como as trevas e sombra da morte, presos em aflição e em ferro; porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus” — Salmos 107:10-11.
Repare: aqui a prisão foi construída pela própria pessoa. Ninguém empurrou. Foi escolha, teimosia, aviso ignorado.
E o que Deus faz com quem se meteu sozinho na cadeia? A mesma coisa. “Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões” (Salmos 107:13-14).
Essa é a parte que muita gente não consegue acreditar. Que o clamor de quem errou por conta própria vale tanto quanto o de quem foi vítima. Vale. O texto está aí.
Os doentes que abominaram toda comida
O terceiro quadro é de gente na cama.
“A sua alma aborreceu toda a comida, e chegaram até às portas da morte” — Salmos 107:18.
Quem já passou por doença longa entende esse detalhe. Perder a vontade de comer é perder a vontade de continuar. O corpo desiste antes da boca dizer.
E aí: “Enviou a sua palavra, e os sarou; e os livrou da sua perdição” (Salmos 107:20).
Enviou a sua palavra. Séculos depois, João escreveria que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1:14). O remédio de Deus tem nome.
Os que viram as maravilhas no fundo do mar
O quarto quadro é o mais dramático. Marinheiros no meio da tempestade.
“Estes veem as obras do SENHOR, e as suas maravilhas no profundo” — Salmos 107:24. As ondas subindo aos céus, descendo aos abismos. Homens experientes cambaleando como bêbados. “E toda a sua ciência se esgotava” (Salmos 107:27).
Guarde essa frase. Toda a ciência deles se esgotou. Chegaram ao fim do que sabiam fazer.
E foi exatamente ali que clamaram. “Faz cessar a tempestade, e acalmam-se as suas ondas” (Salmos 107:29). Depois disso, o versículo mais aliviado do salmo: “então se alegram, porque se aquietaram; assim os leva ao seu porto desejado” (Salmos 107:30).
Porto desejado. Não porto qualquer. O desejado.
O refrão que muda tudo
Quatro histórias. Quatro tipos de aflição. Perdido, preso, doente, afundando.
E um refrão idêntico: clamaram ao Senhor, e Ele os livrou. Versículos 6, 13, 19 e 28. Sempre igual.
O salmista quer que a repetição entre na sua cabeça. Ele não está variando a fórmula porque a fórmula não muda. Não importa como você chegou até aqui — pela distração, pela rebeldia, pela doença ou pela tempestade. A saída é a mesma porta.
E depois de cada livramento, o mesmo pedido: “Louvem ao SENHOR pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens” (Salmos 107:31).
O salmo termina com uma advertência doce: “Quem é sábio observará estas coisas, e eles compreenderão as benignidades do SENHOR” (Salmos 107:43). Sabedoria, aqui, é simplesmente prestar atenção no que Deus já fez.
Aplicação pastoral
1. Clame antes de entender. Nenhum dos quatro grupos do salmo tinha explicação teológica pronta. Eles só gritaram. Se você está esperando organizar as ideias para orar direito, pare de esperar. Deus responde ao clamor bruto, não ao clamor bem redigido. Comece hoje com a frase mais simples que couber na sua boca.
2. Conte o que Ele fez. “Digam-no os remidos do Senhor.” Escolha uma pessoa esta semana e conte um livramento concreto que você viveu — com data, com detalhe, sem exagero. Seu testemunho é remédio para alguém que está no quadro ao lado do seu.
3. Reconheça o porto quando chegar. Muita gente é livrada e nem percebe. Faça uma lista curta: três coisas que já foram tempestade na sua vida e hoje estão calmas. Agradeça por cada uma pelo nome. Sabedoria, segundo o versículo 43, é justamente observar essas coisas.