“Verdadeiramente Deus é bom”
O Salmo 73 é um dos mais intelectualmente honestos do livro. Asafe — músico de Davi e autor de vários salmos — começa com confissão de fé:
“Verdadeiramente é bom Deus para com Israel, para com os limpos de coração.” (Salmos 73:1)
Verdadeiramente Deus é bom. Confissão. Bom para Israel. Para os limpos de coração.
Mas — vem a confissão difícil:
“Quanto a mim, os meus pés quase se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos.” (Salmos 73:2)
Quase me desviei. Asafe — líder de música no templo — quase caiu da fé. Honestidade radical.
Princípio. Crentes maduros podem passar por quase tropeços. Crise da fé não é exclusiva dos imaturos.
”Vi a prosperidade dos ímpios”
“Pois eu tinha inveja dos insensatos, vendo a prosperidade dos ímpios.” (Salmos 73:3)
Inveja dos ímpios. Razão do tropeço. Ímpios prosperando. Justos sofrendo.
Esse problema é eterno. Por que gente que não tem temor a Deus prospera? Por que gente fiel sofre?
“Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força. Não se acham em trabalhos como outra gente, nem são afligidos como outros homens.” (Salmos 73:4-5)
Não há apertos. Asafe observa — ímpios morrem bem. Não sofrem como justos. Saudáveis. Sem problemas aparentes.
Provavelmente exagero observacional sob ânimo invejoso. Mas a percepção parecia real.
”Eis que são ímpios”
“Eis que estes são ímpios; e, todavia estão sempre tranqüilos, e aumentam em riquezas… Como tenho lavado o meu coração em vão, e em inocência lavado as minhas mãos.” (Salmos 73:12-13)
Lavei o coração em vão? Pergunta de Asafe. Toda esta fidelidade — pra quê? Ímpios prosperam sem esse trabalho.
Princípio honesto. Cristão maduro pode passar por essa dúvida. Vale a pena a vida fiel?
“Pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã.” (Salmos 73:14)
Todo dia afligido. Cada manhã castigado. Sofrimento constante.
”Atentei pra entender isto”
“Quando pensava em entender isto, foi para mim mui doloroso.” (Salmos 73:16)
Quando pensei pra entender, foi doloroso. Asafe tentou raciocinar. Não conseguiu. Crise intelectual.
”Até que entrei no santuário”
“Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles.” (Salmos 73:17)
Até que entrei no santuário. Virada. Lugar da resposta. Comunhão com Deus.
Entendi o fim deles. Não na posição atual — no fim. Perspectiva escatológica mudou tudo.
Princípio. Cristão maduro, na dúvida, vai ao santuário — à presença de Deus. Não tenta resolver sozinho. Não fica em casa ruminando.
”Em lugares escorregadios”
“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças na destruição. Como caem na desolação, quase num momento! Ficam totalmente consumidos de terrores.” (Salmos 73:18-19)
Lugares escorregadios. Ímpios parecem firmes — mas o solo é escorregadio. Caem na destruição. Quase num momento.
Princípio. Cristão maduro vê além da aparência. Prosperidade dos ímpios — enganadora. Final é desastre.
”Como um bruto”
“Assim me entristeceu o coração, e me atormentou os rins. Tão estúpido era eu, e nada entendia; era como uma besta perante ti.” (Salmos 73:21-22)
Estúpido. Como besta. Asafe autocritica a fase anterior. Não entendia. Reagia visceralmente. Sem perspectiva.
Princípio. Cristão maduro reconhece fases bestiais na própria caminhada. Quando reage sem pensar. Quando inveja. Quando se compara. Reconhece — e segue.
”Estou sempre contigo”
E vem a parte mais bonita do salmo:
“Todavia, estou de contínuo contigo; tu me sustentaste pela minha mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás em glória.” (Salmos 73:23-24)
Estou contigo. Tu me sustentaste pela mão direita. Mesmo quando duvidou, Deus o sustentou. Cristão maduro reconhece — fé continuou nas mãos divinas mesmo quando a confiança humana balançou.
Guiar-me-ás. Depois me receberás em glória. Trajetória. Vida com guia divina. Final — glória.
“Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti.” (Salmos 73:25)
Quem tenho no céu senão a ti? Confissão suprema. Acima de tudo — Deus. Nada no céu competindo com Deus.
Na terra não há quem eu deseje além de ti. Confissão acima do casamento, dos filhos, do trabalho. Tudo secundário.
Cristão maduro chega a essa confissão. Lentamente. Após crises. Mas chega.
”Bom é estar perto de Deus”
“A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre.” (Salmos 73:26)
Carne e coração desfalecem. Deus — fortaleza pra sempre. Reconhecimento da fragilidade própria + suficiência de Deus.
“Mas para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus a minha confiança no Senhor DEUS, para anunciar todas as tuas obras.” (Salmos 73:28)
Bom é aproximar-me de Deus. Conclusão do salmo. Foi bom ter passado pela crise — porque levou à proximidade maior.
Aplicação pastoral
Salmo 73 ensina três coisas pra a vida cristã. Primeiro: dúvidas têm lugar. Mesmo músico do templo quase desviou. Sentir inveja dos ímpios é humano. Não desespere. Asafe passou. Você pode passar.
Segundo: vá ao santuário. Quando a confusão paralisar — vá à presença de Deus. Não tente resolver na cabeça sozinho. Comunhão — traz perspectiva nova.
Terceiro: olhe pra o fim. Prosperidade dos ímpios é no atual. Final — desolação. Cristão maduro enxerga além. Vive pelo que dura além desta vida.
E quem tenho eu no céu senão a ti? — confissão da fé madura. Acima de tudo, Deus. Carne desfalece. Deus — porção pra sempre. Cristão maduro chega a essa centralidade após travessias.