A segunda viagem missionária
Paulo está na segunda viagem. Saiu de Antioquia com Silas. Recebeu a visão do macedônio em Trôade. Atravessou pra Europa. Filipos — Lídia convertida, carcereiro convertido. Tessalônica — grande comoção. Beréia — nobres receptivos que examinaram as Escrituras. Em Beréia, perseguição. Paulo parte sozinho pra Atenas. Espera Silas e Timóteo o alcançarem.
E chega a Atenas. Cidade de Sócrates, Platão, Aristóteles. Berço da filosofia ocidental. Capital cultural do mundo antigo — embora politicamente decadente na época do Império Romano.
Atenas cheia de ídolos
“E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria.” (Atos 17:16)
Cidade entregue à idolatria. Estátuas em cada esquina. Templos em cada colina. Pântenon, Erecteion, Templo de Zeus. Milhares de imagens. Petrônio, escritor romano, ironizou — “em Atenas é mais fácil encontrar um deus que um homem”.
Espírito de Paulo se comovia. Verbo grego paroxynō — agudo, irritado, aflito. Paulo não se encantou com a cultura. Doía nele ver tantas almas perdidas em adoração errada.
Cristão sensível não confunde beleza cultural com verdade espiritual. Atenas era bela. Mas — cega.
Diálogo na sinagoga e na praça
“De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos, e todos os dias na praça com os que se apresentavam.” (Atos 17:17)
Sinagoga — com judeus. Praça — com gregos. Paulo adapta o público sem mudar a mensagem.
Praça — ágora. Lugar de comércio, política e debate. Sócrates tinha feito o mesmo séculos antes. Paulo segue o método — conversa com quem aparecer.
Os filósofos curiosos
“E alguns dos filósofos epicureus e estoicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro?” (Atos 17:18)
Epicureus. Seguidores de Epicuro. Filosofia — prazer moderado como bem maior. Deuses existem, mas não se importam com humanos. Materialistas. Sem esperança após a morte.
Estoicos. Seguidores de Zenão. Filosofia — aceitar o destino, viver segundo a natureza, controlar as paixões. Panteístas — Deus é a razão imanente no mundo. Ética rigorosa.
Dois polos opostos — escutam Paulo. Chamam-no paroleiro — spermológos, em grego. Catador de sementes. Termo depreciativo — alguém que recolhe ideias soltas sem profundidade.
Convidado ao Areópago
“E, tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?” (Atos 17:19)
Areópago. Monte de Ares — deus da guerra. Tribunal supremo de Atenas. Também — fórum onde se discutiam novidades religiosas e filosóficas. Paulo levado — não como réu, como expositor.
Lucas acrescenta observação interessante:
“(Pois todos os atenienses e estrangeiros que ali residiam de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade.)” (Atos 17:21)
Curiosidade pelo novo. Sem profundidade. Sintoma de cultura em decadência — consume novidades sem digerir.
A ponte do altar
“E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Varões atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos.” (Atos 17:22)
Vejo-vos religiosos em tudo. Tradução da palavra grega deisidaimonesterous — pode ser religioso (positivo) ou supersticioso (negativo). Paulo escolhe termo ambíguo — começa elogiando, sem baixar guarda crítica.
E aí — a ponte:
“Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, vos anuncio.” (Atos 17:23)
Altar ao Deus desconhecido. Atenienses — com medo de esquecer algum deus e ofendê-lo — erguiam altares genéricos. Adoravam uma suspeita. Sem nome.
Paulo apanha essa lacuna e a preenche. “Esse que vocês adoram sem conhecer — eu anuncio.”
Método missionário sábio. Começar onde o ouvinte já está. Reconhecer o vácuo. Preencher com Cristo.
A pregação resumida
Paulo constrói a mensagem em camadas. Primeiro — o Deus criador:
“O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.” (Atos 17:24)
Deus — criador. Não contido em templos. Não precisa de nada de humanos. Contrário a toda a idolatria ateniense — que fabricava deuses.
Segundo — unidade da humanidade:
“E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação.” (Atos 17:26)
De um só sangue. Toda a humanidade — uma família. Atenienses se achavam superiores — autóctones da terra ática. Paulo derruba o orgulho racial — somos todos parentes.
Terceiro — busca natural por Deus:
“Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós.” (Atos 17:27)
Tateando. Imagem — cego procurando parede. Humanidade — busca o divino as escuras. Deus — próximo, mas — humanos não encontram sozinhos.
Quarto — cita poetas gregos:
“Nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.” (Atos 17:28)
Citações de Epimênides e Arato — poetas gregos. Paulo conhece a cultura do ouvinte. Usa a própria sabedoria deles — quando aponta verdade.
O ponto sem volta
E aí — o golpe:
“Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.” (Atos 17:30-31)
Arrependimento. Juízo. Homem destinado — Cristo. Prova — ressurreição.
Paulo não evita o difícil. Educado — sim. Manso — sim. Diluído — não.
A reação dividida
“E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez.” (Atos 17:32)
Três grupos. Escarnecedores — zombam. Filosofia grega desprezava ressurreição corporal — corpo era prisão da alma. Adiadores — outra hora. Sem compromisso. E terceiro grupo:
“Todavia, alguns homens se chegaram a ele, e creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, e uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros.” (Atos 17:34)
Dionísio — areopagita, membro do tribunal. Pessoa de prestígio. Dâmaris — mulher, nomeada — sinal de importância. Outros. Pequena colheita pelos padrões de Paulo — Atenas não virou centro forte da igreja. Mas — converteu alguns.
Aplicação pastoral
Atos 17 ensina três coisas pra a fé. Primeiro: cultura não é inimiga, mas não é amiga sem critério. Paulo citou poetas gregos. Usou o altar do deus desconhecido. Mas não cedeu no Evangelho. Cristão maduro conhece a cultura onde vive, usa pontes legítimas, mas — não dilui a mensagem.
Segundo: missão começa por enxergar. Paulo se comoveu ao ver ídolos. Não passou indiferente. Não admirou estética sem ver miséria espiritual. Olho missionário dói primeiro — depois fala.
Terceiro: nem todos vão crer — pregue assim mesmo. Três grupos — escarnecedores, adiadores, crentes. Sempre será assim. Não desanime com os primeiros. Não desista dos segundos. Celebre os terceiros. Dionísio e Dâmaris valeram a viagem.
E o altar ainda existe — com nomes diferentes. Em cada coração que adora algo sem saber a quem adora — ali Paulo ainda pode anunciar. Atos ainda missiona.