“Eis que não me crerão”

Êxodo 4 é continuação direta do Êxodo 3 — a sarça ardente. Deus tinha chamado Moisés pra libertar Israel. Moisés tinha levantado uma objeção (“quem sou eu?”). Agora levanta outras.

“Então respondeu Moisés, e disse: Mas eis que me não crerão, nem ouvirão a minha voz, porque dirão: O SENHOR não te apareceu.” (Êxodo 4:1)

Eis que não me crerão. Objeção razoável humanamente. Moisés previa o problema. Como provar que viu Deus na sarça?

E Deus responde com sinais:

“O SENHOR disse-lhe: Que é isso na tua mão? E ele disse: Uma vara. E ele disse: Lança-a na terra. Ele a lançou na terra, e tornou-se em cobra; e Moisés fugiu dela.” (Êxodo 4:2-3)

A vara vira cobra. Moisés foge. Compreensível. Cobra no Egito era símbolo do poder faraônico (a coroa de Faraó tinha uma cobra). Deus já antecipa — vou vencer o poder do Egito.

Deus manda Moisés pegar pela cauda. Volta a ser vara. Sinal de autoridade sobre o medo.

E mais dois sinais — mão leprosa que vira limpa, água do rio que vira sangue. Três sinais pra autenticar a mensagem.

”Não sou eloquente”

“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua.” (Êxodo 4:10)

Não sou eloquente. Objeção retórica. Pesado de boca e língua. Moisés talvez gago — ou apenas sem dom oratório.

Princípio. Cristão chamado por Deus muitas vezes resiste alegando incapacidade. Não sei pregar. Não tenho carisma. Não sei lidar com pessoas. Deus já ouviu essa objeção.

“E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? Ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR?” (Êxodo 4:11)

Quem fez a boca? Pergunta cortante. Deus é o criador das capacidades humanas. Pode dar o que falta.

“Vai pois agora, e eu serei com a tua boca, e te ensinarei o que hás de falar.” (Êxodo 4:12)

Eu serei com a tua boca. Promessa. Eu te ensinarei. Cristão chamado recebe o que falta. Deus capacita o chamado.

A última objeção

“Ele, porém, disse: Ah Senhor! envia, peço-te, pela mão daquele a quem tu hás de enviar.” (Êxodo 4:13)

Envia por outro. Moisés insiste em recusar. “Manda outro”. Resistência teimosa.

“Então se acendeu a ira do SENHOR contra Moisés.” (Êxodo 4:14)

Acendeu-se a ira. Deus tinha sido paciente até aqui — respondendo objeções, dando sinais, prometendo capacitação. Mas há limite. Recusa persistente irrita.

Cristão maduro reconhece — recusar o chamado de Deus tem consequências. Não é leve.

E Deus concede o que Moisés não merecia:

“Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele falará muito bem; e eis que ele também sai ao teu encontro.” (Êxodo 4:14)

Arão como porta-voz. Concessão de Deus. Mastambém consequência. Arão seria problema depois (bezerro de ouro em Êxodo 32). Quando Deus cede a algo fora do plano ideal, ainda funciona, mas com custo.

”E foi Moisés”

“Então foi Moisés, e voltou para Jetro seu sogro, e disse-lhe: Eu irei agora, e tornarei a meus irmãos, que estão no Egito.” (Êxodo 4:18)

Foi Moisés. Finalmente. Obediência depois de muita resistência.

O encontro com a morte

E vem um dos textos mais misteriosos do AT:

“Aconteceu, pois, no caminho, numa estalagem, que o SENHOR o encontrou, e o quis matar.” (Êxodo 4:24)

O Senhor o quis matar. Texto difícil. Por que matar Moisés depois de tudo? Provavelmente porque Moisés tinha negligenciado a circuncisão do filho — sinal central da aliança abraâmica.

“Então Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e o lançou aos seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. E o SENHOR o deixou.” (Êxodo 4:25-26)

Zípora — esposa de Moisés — resolve a situação. Circuncida o filho. O Senhor deixa Moisés.

Princípio. Líder cristão não pode negligenciar o próprio compromisso com Deus em casa. Moisés ia libertar Israelmas não tinha cumprido um mandamento básico na própria família. Coerência interna é exigida.

Israel ouve e crê

“E Arão falou todas as palavras que o SENHOR tinha dito a Moisés, e fez os sinais perante os olhos do povo. E o povo creu, e ouviram que o SENHOR visitava aos filhos de Israel, e que via a sua aflição; e inclinaram-se, e adoraram.” (Êxodo 4:30-31)

O povo creu. Inclinaram-se e adoraram. Resultado imediato. Israel recebeu a mensagem. Esperança despertou.

Detalhe importante. Moisés temia que não cressem (v. 1). Mas creram. Cristão maduro reconhece — Deus age na hora certa. Receio prévio costuma ser exagerado.

Aplicação pastoral

Êxodo 4 ensina três coisas pra a vida cristã. Primeiro: Deus capacita quem chama. Quem fez a boca? Eu serei contigo. Cristão chamado pode não ter a capacidade óbvia. Deus dá. Resistência alegando incapacidade é desconfiança na fonte da capacidade.

Segundo: recusa persistente irrita. Há paciência divina. Há limite. Acendeu-se a ira. Cristão sábio não insiste em recusar quando Deus já respondeu múltiplas objeções. Vai.

Terceiro: cuide da própria casa. Moisés ia liderar nação inteira — mas tinha negligenciado o filho. Cristão maduro começa em casa. Antes de pregar fora, exemplo dentro.

E o cajado continua nas mãos. Em cada chamado, Deus perguntaque é isso na tua mão? Mesmo vara comum pode virar instrumento de milagre. Use o que tem. Lance ao chão. Veja Deus agir.