A profecia mais clara do Calvário

Isaías 53 é um dos capítulos mais extraordinários da Bíblia. Escrito 700 anos antes da crucificação, descreve a morte de Cristo com precisão impressionante. Detalhe por detalhe do Calvário aparece aqui — sofrimento substitutivo, silêncio diante dos acusadores, sepultura com o rico, ressurreição.

A igreja primitiva citava Isaías 53 como uma das principais provas de que Cristo era o Messiasa Escritura tinha previsto esse Messias sofredor.

“Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Isaías 53:1)

Pergunta retórica. O servo será reconhecido por poucos. Maioria não receberá a mensagem.

“Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos.” (Isaías 53:2)

Como renovo de terra seca. O servo não viria com pompa real. Origem humilde. Sem beleza nem formosura. Não foi rei como Davi. Não foi sábio como Salomão. Era renovo discreto.

Esse detalhe é importante. Cristo não veio com aparência de superstar. Não há descrição física dele no NT. Não há carisma físico destacado. Os apóstolos não enfatizam beleza. Sua atração era espiritual e moral, não estética.

”Homem de dores”

“Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.” (Isaías 53:3)

Homem de dores. Em hebraico, ish makobot. Frase virou título de Cristo.

Desprezado, rejeitado. Cristo veio aos Seus — os Seus não O receberam (João 1:11). Vivenciou rejeição plena.

Experimentado nos trabalhos. Conheceu sofrimento por dentro. Não foi observador distante — experimentou. Por isso é misericordioso — sabe o que é.

Homens escondiam o rosto. Vergonha social. Pessoas evitavam contato visual com ele depois da cruz. Não fizemos dele caso algum. A grandeza dele não foi reconhecida na hora.

A substituição

E vem o coração teológico do capítulo:

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53:4-5)

Esses dois versículos são o coração do evangelho.

Tomou sobre si as nossas enfermidades. Mateus 8:17 cita esse trecho descrevendo as curas de Cristo. Levou sobre si o que era nosso.

Nós o reputávamos ferido de Deus. O povo pensou que ele merecia. Achavam que Deus o estava castigando por culpa dele. Mas era culpa nossa que ele carregava.

Foi ferido por causa das nossas transgressões. Pelas nossas. Substituição. Cristo no nosso lugar.

Pelas suas pisaduras fomos sarados. Detalhe profundo. Pisaduras (machucados) dele curaram nós. Quando alguém é açoitado, quem leva o açoite sofre, quem assiste vê. Aqui, Cristo leva os açoites — nós somos curados. Pedro repete em 1 Pedro 2:24.

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos.” (Isaías 53:6)

Como ovelhas. Imagem do extravio coletivo. Cada um pelo seu caminho — não cada um no mesmo caminho erradocada um tem seu desvio próprio. Pecado é universal mas personalizado.

O SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. O Pai concentrou todos os pecados sobre Cristo. Imputação — pecado atribuído a Quem não cometeu. Princípio teológico que estrutura todo o NT.

”Não abriu a sua boca”

“Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” (Isaías 53:7)

Não abriu a boca. Cumprido no julgamento de Cristo. Pilatos maravilhou-se de que Jesus não respondia (Mateus 27:14). Não defendeu-se. Não revidou. Silêncio voluntário diante da injustiça.

Como cordeiro ao matadouro. João Batista vai retomar — “eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). E Apocalipse 5 mostrará Cristo como Cordeiro morto e ressuscitado adorado pelos remidos.

”Com o rico em sua morte”

“E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca.” (Isaías 53:9)

Sepultura com os ímpios. Cristo foi crucificado entre dois malfeitores (Mateus 27:38).

Com o rico em sua morte. José de Arimatéia (rico, segundo Mateus 27:57) cedeu sepulcro novo pra Cristo. Profecia cumprida com precisão — crucificado entre ímpios, sepultado em túmulo de rico. Sete séculos antes.

Nunca cometeu injustiça nem houve engano na sua boca. Inocência total. Princípio essencial — o substituto tinha que ser sem pecado. Animais sacrificados no AT eram sem mácula. Cristo, sem pecado, qualificado pra ser o sacrifício definitivo.

”Verá a sua posteridade”

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão.” (Isaías 53:10)

Texto teologicamente denso. Ao Senhor agradou moê-lo — não no sentido sádico, mas no sentido de plano divino aprovado. O Pai concordou com o sacrifício do Filho. Não foi acidente.

Verá a sua posteridade. Depois da morte — ressurreição. Posteridade — descendentes espirituais (cristãos).

Prolongará seus dias. Vida após a morte. Ressurreição implícita.

O bom prazer do SENHOR prosperará. O propósito divino terá êxito.

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si.” (Isaías 53:11)

O justo justificará a muitos. Frase central da soteriologia. Justo — Cristo. Justificará — declarar justo. Muitos — todos os que creem.

Cristo, sendo o único justo, pode transferir a justiça aos injustos. Não por simpatia — porque levou as iniquidades deles. Justiça transferida legalmente.

”Intercedeu pelos transgressores”

“Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.” (Isaías 53:12)

Intercedeu pelos transgressores. Cristo no calvário orou — “Pai, perdoa-lhes” (Lucas 23:34). Cumpriu literalmente Isaías 53. Enquanto morriaintercedia pelos que o matavam.

E Cristo continua intercedendo hoje. Hebreus 7:25 — “vive sempre para interceder por eles”. Por você. Naquele exato momento.

Aplicação pastoral

Isaías 53 ensina três coisas pra a fé. Primeiro: a cruz não foi acidente. Profetizada 700 anos antes. Cada detalhe — substituição, silêncio, sepultura com rico, intercessão — cumprido em Cristo. Cristianismo não é mitologia. É cumprimento.

Segundo: você foi sarado pelas pisaduras dEle. Os seus açoites curaram você. Em qualquer área de quebra — moral, emocional, espiritual — aplique a obra Dele. Pelas suas pisaduras fomos sarados. Esse versículo vale também pra cura interior.

Terceiro: ovelhas extraviadas têm pastor. Andávamos desgarrados. Mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Quem se reconhece extraviado pode voltar pela porta aberta da cruz. Ninguém está extraviado demais.

E o servo continua intercedendo. Pelos transgressores. Por nós ainda. Por isso a porta da fé continua aberta. Quem deu crédito à nossa pregação? — pergunta de Isaías. Cristão hoje responde: eu.